quarta-feira, 7 de setembro de 2011


Não me peças palavras, nem baladas, Nem expressões, nem alma...

Menino doido, olhei em volta, e vi-me Fechado e só na grande sala escura. (Abrir a porta, além de ser um crime, Era impossível para a minha altura...)
Desde que tudo me cansa, Comecei eu a viver. Comecei a viver sem esperança... E venha a morte quando Deus quiser.




Sim, foi por mim que gritei


não me perguntes quem sou. não me perguntes nada. eu não sei responder a todas as perguntas do mundo.






esquece as palavras por momentos. o que temos para dizer não pode ser dito




A dor não me pertence. Vive fora de mim, na natureza, livre como a electricidade. Carrega os ceus de sombra, entra nas plantas, desfaz as flores... Corre nas veias do ar, atrai os abismos, curva os pinheiros... E em certos momentos de penumbra iguala-me à paisagem, Surge nos meus olhos presa a um passaro a morrer no céu indiferente. Mas não choro. Não vale a pena! A dor não é humana.


José Gomes Ferreira

Pobres, gritai comigo

Porque o fim de um caminho sempre me entregou o limiar de outro caminho
Amor, amor, amor, como não amam os que de amor o amor de amar não sabem, como não amam se de amor não pensam os que de amar o amor de amar não gozam.
Mas o coração, esmagado pelo amor e pelos números, pelas censuras e as perseguições, arde, arde luminoso até à morte.


Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos, mágoas, humilhações, tristes surpresas; e foi traído, e foi roubado, e foi privado em extremo da justiça justa; e andou terras e gentes, conheceu os mundos e submundos; e viveu dentro de si o amor de ter criado; quem tudo leu e amou, quem tudo foi - não sabe nada, nem triunfar lhe cabe em sorte como a todos os que vivem. Apenas não viver lhe dava tudo. Inquieto e franco, altivo e carinhoso, será sempre sem pátria. E a própria morte, quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

Não teimes, não insistas, não repitas, mas vive como quem, teimando, insiste, e, porque insiste, como que repete.




Mandei-o descascar batatas, respondeu-me que os astros auguravam bom tempo. Decididamente era verdade que o imperador fizera o seu cavalo cônsul.


Jorge de Sena, Peregrinatio ad loca infecta (1969)



Porque os heróis também nunca tiveram melhor sorte
—Meu corpo, que mais receias?
—Receio quem não escolhi.

—Na treva que as mãos repelem
os corpos crescem trementes.
Ao toque leve e ligeiro
O corpo torna-se inteiro,
Todos os outros ausentes.

Os olhos no vago
Das luzes brandas e alheias;
Joelhos, dentes e dedos
Se cravam por sobre os medos...
Meu corpo, que mais receias?

—Receio quem não escolhi,
quem pela escolha afastei.
De longe, os corpos que vi
Me lembram quantos perdi
Por este outro que terei.

Jorge de Sena
Não adoro o passado
Perdem-se as letras. Noite, meu amor, ó minha vida, eu nunca disse nada. Por nós, por ti, por mim, falou a dor. E a dor é evidente - libertada.

Os pensamentos pastam na verdura, balindo mansamente em torno dele
Que o meu túmulo seja o lugar escuso para encontros.

Amor que as asas sobre o corpo nu fecha tranquilas no possuir da sorte.


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo. Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados, e entregues hipocritamente à secular justiça, para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.» Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória. Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido. Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos. Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus. Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos. Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sémen a caminho do mundo que vos sonho. Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. É isto o que mais importa - essa alegria. Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá. Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia - mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga - não hão-de ser em vão. Confesso que multas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam «amanhã». E, por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram. Lisboa, 25 de Junho de 1959


Jorge de Sena