segunda-feira, 26 de setembro de 2011


Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe...
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.


Perdi-me dentro de mim  
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim. 
 
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida... 
 
Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem. 



De que me vale sair, se me constipo logo?

Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p'ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P'ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...

Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!



Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...


Se me vagueio, encontro só indícios...




De tudo houve um começo... e tudo errou...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído

Um pouco mais de sol - eu era brasa.
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...


Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci


Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício




Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio







alguém nos levará tocando-nos com um dedo

Já nada temos a fazer sobre a Terra esperemos de olhos fechados a passagem do vento


O que vem escrito na sola dos sapatos?

Este lado pra baixo!